O Brasil, a corrupção e o mundo

O Brasil encontra-se numa posição muito ruim em matéria de corrupção, segundo dados de 2018. Ficamos acima de 30 países africanos, 11 asiáticos, 10 países americanos, 9 da europa oriental e de nenhum país europeu ocidental que faz parte da União Européia, ou sejá, ficamos em melhor posição de somente 60 países. Por outro lado ficamos abaixo dos 32 países da União Européia, de 19 das américas, de 18 asiáticos, de 16 africanos, de 9 do oriente médio e de 6 da europa oriental, os seja, ficamos abaixo de 90 países, dos 151 que coletei dos examinados pela transparência internacional.
Mas, o que será que explica a corrupção? Já ví muitas pessoas acusarem exclusivamente a classe política por todos os males da corrupção que assolam as terras tupininquins. Mas, se observarmos com um olhar mais crítico, veremos que antes do político ser um profissional, e mesmo durante seu mandato, ele é um cidadão brasileiro, ou seja, o germe da corrupção já estava inserido nele antes que exercesse a profissão, o que quer dizer que, se ele fosse um outro profissional e a chance aparecesse ele corromperia ou seria corrompido.

Isso pode ser observado, por exemplo, quando a polícia faz uma "blitz" com a "intenção" de manter a ordem pública com os veículos em bom estado de conservação, com as taxas pagas e seguros para circularem pelas ruas e estradas brasileiras, citei aqui alguns itens que a lei requer, fora a carteira de habilitação e o documento de propriedade do veículo. Mas, na prática, alguns policiais querem mesmo é a chance de encontrar uma irregularidade na documentação e/ou no estado de conservação, ou ainda, algo que fuja dos padrões permitidos para poder dessa forma ganhar alguma facilidade sob a forma de "propina", que é o tipo mais comum de corrupção.
Todos devem ter notado o estardalhaço que foi a "descoberta" das empresas que corrompiam para ganhar licitação, mostrado pelas redes televisivas e jornais e revistas, e tudo vazado pela "Operação Lava a Jato". Bom, quem não era criança e portanto não sabia nada disso, deve ter ficado estupefacto com essas manchetes, mas, quem esteve sempre com os olhos abertos, sabe que esse tipo de mutreta, é fato corriqueiro aqui no Brasil e em todos os países em que a livre negociação existe. Aliás, a grande maioria das licitações feitas já tem um vencedor "conhecido" muito antes da abertura dos envelopes lacrados.

Não estou de jeito nenhum defendendo quem corrompe e quem é corrompido, pois de uma forma geral isso é uma falta de caráter, mas é uma "instituição" na sociedade atual, tanto que, novamente voltando para o exemplo do trânsito, o motorista que reconhece que está com algum problema legal na sua função, não sai de casa sem antes separar a propina que terá que perder para o guarda ou policial que o possa abordar. Mas não vou ficar batendo só no policial, pois outras classes que deveriam fazer cumprir a lei por meio da fiscalização, são tão corrompidos quanto ele. São corrompidos os bombeiros, os fiscais de renda e fazenda, os fiscais de vendedores lojistas e ambulantes, os médicos pelos laboratórios... e por aí vai.
Então, se pararmos para pensar não conseguiremos chegar a um denominador comum. Abaixo, temos algumas tabelas, com as listas dos países analizados pela transparência internacional, separadas pela localização. Lembrando que nessas listas, as notas (NC - Nível de Corrupção) maiores são para os países menos corruptos. Note que nessas tabelas só estou destacando os 10 menos corruptos.

Agora para incrementar um pouco mais o raciocínio, inseri também os 10 maiores PIB(Em bilhões de dólares americanos) desses países, e é bom que se perceba, que nem sempre a riqueza é mérito quando se trata de corrupção.
Por esse exemplo nota-se que somente 3 países estão entre os 10 menos corruptos e entre os 10 mais ricos. Esses países são: O Canadá, ocupando a 6º posição de menos corrupto e a 10º posição de mais rico, seguido da Alemanha e do Reino Unido, ambos na 7º posição de menos corruptos e 4º e 5º posição de mais ricos. Todos os outros 7 países mais ricos, incluindo o Brasil na 7º posição emcontram-se longe de pontuar bem à nivel de corrupção.

PAÍS LOCALIZAÇÃO NC
Dinamarca Europa Ocidental 88 - 1º
Nova Zelândia Ásia-Pacífico 87 - 2ª
Finlândia - Suécia - Suiça Europa Ocidental 85 - 3º
Cingapura Ásia-Pacífico 85 - 3º
Noruega Europa Ocidental 84 - 4º
Países Baixos Europa Ocidental 82 - 5º
Luxemburgo Europa Ocidental 81 - 6º
Canadá Américas 81 - 6º
Alemanha - Reino Unido Europa Ocidental 80 - 7º
Austrália Ásia-Pacífico 77 - 8º
Áustria - Islândia Europa Ocidental 76 - 9º
Hong Kong Ásia-Pacífico 76 - 9º
Bélgica Europa Ocidental 75 - 10º

PAÍS LOCALIZAÇÃO NC PIB
Estados Unidos da America Américas 71 - 14º 17.348,072 - 1º
China Ásia-Pacífico 39 - 46º 10.430,590 - 2º
Japão Ásia-Pacífico 73 - 12º 4.602,419 - 3º
Alemanha Europa Ocidental 80 - 7º 3.868,291 - 4º
Reino Unido Europa Ocidental 80 - 7º 2.988,893 - 5º
França Europa Ocidental 72 - 14º 2.829,192 - 6º
Brasil Américas 35 - 50º 2.346,523 - 7º
Itália Europa Ocidental 52 - 33º 2.141,161 - 8º
Índia Ásia-Pacífico 41 - 44º 2.054,941 - 9º
Canadá Américas 81 - 6º 1.785,387 - 10º

Tenho ouvido por aí, entre pessoas que se acham antenadas politicamente, que o maior problema da corrupção se deve em grande parte ao número de empresas públicas, as chamadas estatais, e que se o Brasil vendê-las para o setor privado teríamos uma grande diminuição deste problema. Pois bem, apresento aqui estudos e publicações de órgãos e revistas e estudiosos conceituados, a respeito das estatais no mundo, e também aqui no Brasil;

Das dez maiores empresas do mundo, tendo-se como referência o valor total do ativo detido, segundo a revista Forbes, em 2018, 60% são empresas estatais, pertencentes a China, Estados Unidos e Japão (Forbes., 2018):

1 - ICBC – China; banco comercial e industrial; com ativos na ordem de US$ 4,2 trilhões;
2 - China Construction Bank – China; banco comercial: com ativos na ordem de US$ 3,6 trilhões;
3 - China Agricultural Bank – China; banco agrícola; com ativos na ordem de US$ 3,4 trilhões;
4 - Fannie Mae – Estados Unidos; atuante no mercado de hipotecas; com ativos na ordem de US$ 3,3 trilhões;
5 - Bank of China – China; banco comercial; com ativos na ordem de US$ 3,2 trilhões;
6 - Japan Post Holdings – Japão; conglomerado com atuação em setores como transportes, postal, banco comercial e seguros; com ativos na ordem de US$ 2, 5 trilhões.

Tais conglomerados estatais superam, ainda segundo os dados da Forbes para ativos detidos, em 2018, gigantes de tecnologia da informação, da indústria farmacêutica ou da indústria do entretenimento:

Apple, com ativos na ordem de US$ 367,5 bilhões;
Facebook, com ativos na ordem de US$ 88,9 bilhões;
Amazon, com ativos na ordem de US$ 126,4 bilhões;
Microsoft, com ativos na ordem de US$ 245,5 bilhões;
Bayer, com ativos de US$ 92,7 bilhões; e
Wall Disney, com ativos de US$ 97,9 bilhões.

Os Estados capitalistas contemporâneos produziram também empresas estatais multinacionais, que operam estratégias econômicas em defesa de suas economias para além de suas fronteiras. A United Nations Conferece on Trade and Development – UNCTAD, em relatório de 2017, identificou aproximadamente 1.500 “Estatais Multinacionais” com mais de 86 mil filiais ao redor do mundo, sendo a Europa detentora de um terço do total.

Segundo a agência, as Estatais Multinacionais foram criadas por seus Estados soberanos com objetivos específicos, como implementar escolhas estratégicas de desenvolvimento, lidar com políticas públicas econômicas para além da perspectiva microeconômica ou de curto prazo, controlar recursos estratégicos ou adotar medidas de segurança nacional. As estatais devem implementar objetivos nacionais e coletivos, que as estruturas empresariais privadas, individuais, centradas no auto interesse e operando a partir da microrracionalidade não têm pretensões ou condições de satisfazer em tempo, escala ou direção hábil. (Octaviani & Nohara, 2019)

De acordo com o critério utilizado pela UNCTAD para identificar empresas estatais, estão as maiores Estatais Multinacionais (não financeiras) do mundo, as seguintes empresas:

Volkswagen (Alemanha, indústria automobilística, ativos de US$ 431 bilhões, participação estatal de 20%);
EDF (França, indústria de infraestrutura, ativos de US$ 296 bilhões, participação estatal de 84%);
Japan Tobacco ( Japão, indústria de Tabaco, ativos de US$ 40 bilhões, participação estatal de 33%);
Airbus ( França, indústria aérea, ativos de US$ 117 bilhões, participação estatal de 11%);
CNOOCC ( China, indústria de Petróleo, ativos de US$ 179 bilhões, participação estatal de 100%);
Renault ( França, indústria automobilística, ativos de US$ 107 bilhões, participação estatal de 15%);
StatOil ( Noruega, indústria do Petróleo, ativos de US$ 104 bilhões, participação estatal de 67%) e
Peugeot Citroen (França, indústria automobilística, ativos de US$ 47 bilhões, participação estatal de 13%).

Alguns exemplos interessantes de países com grande número de estatais são os Estados Unidos e a China. O país tido mais liberal do mundo, tem nada mais, nada menos que 7000 estatais, que atuam em setores como: crédito, hipotecas, prisional, seguro habitação, infraestrutura, energia, entre outros. Algumas como a Fannie Mae (com ativos de US$ 3,3 trilhões) e Freddie Mac (com ativos de US$ 2 trilhões), estão entre as maiores forças econômicas do mundo. (Octaviani & Nohara, 2019)

A China, país com a mais dinâmica economia do mundo nas últimas décadas, é também o Estado que possui a maior quantidade de empresas estatais: aproximadamente 150 mil, sendo 55000 (33%) diretamente subordinadas ao Governo Central. As estatais estão distribuídas entre os mais diversos setores da economia, do turismo à infraestrutura, do setor bancário à biotecnologia. Em 2017, a lista “Fortune Global 500” incluiu 48 estatais chinesas, no mesmo ano, o lucro total obtido com as estatais do governo central chinês chegou a US$ 217, 5 bilhões.

Ao pretender abrir mão do controle público de setores estratégicos, o Brasil atua em descompasso com o processo de reestatização pelo qual passam os países mais desenvolvidos, de acordo com estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, pode-se afirmar a luz dos dados colocados, que o Brasil está na contramão do mundo.


Por Jorge Chaves.